Sonho maldito /!\

«Ela fungou, uma vez, e olhou para ele, com olhos negros esborratados.

- E às vezes entusiasmo-me um bocado, é só isso. Se tu não fosses sempre tão... crítica...

- Sou? Não me parece que seja. Eu tento não ser. Eu só não... - Deteve-se no que ia dizer, abanou a cabeça. - Eu sei que passaste por muito, nos últimos meses, e eu tentei compreender, a sério que sim, com a tua namorada e tudo, mas...

- Continua - disse ele.

- Simplesmente, não me parece que sejas a pessoa que eu conhecia dantes. Já não és meu amigo. É tudo.

A ele não lhe ocorria nada que dizer perante isto, e então, ficaram em silêncio, até que Mónica estendeu a mão, agarrou dois dedos da mão dele, apertou-os na palma da mão dela.

- Talvez... talvez tenha chegado a altura - disse ela. - Talvez tenha simplesmente acabado.

- Acabado? O que é que acabou?

- Nós. Tu e eu. A amizade. Há coisas sobre as quais eu necessitava de falar contigo, Jorge. Acerca de mim e do que me te acontecido. Se és meu amigo, então devo conseguir falar contigo disso, mas não consigo, e se não consigo falar contigo, bem, tu serves para quê? Ou nós?

- "Serves para quê?"

- Tu próprio disseste, as pessoas mudam, não vale a pena estar com sentimentalismos acerca disso. É seguir em frente, encontrar outra pessoa.

- Sim, mas eu não me referia a nós...

- Não, porquê?

- Porque nós somos... nós. Somos o nabo e a nabiça. Não somos?

Ela encolheu os ombros.

- Se calhar já não servimos um para o outro.

Jorge nada disse durante um momento, e depois falou.

- Então, achas que tu já não me serves, ou que eu já não te sirvo?

Mónica limpou o nariz com as costas da mão.

- Eu acho que tu achas que eu sou... cinzenta. Acho que tu achas que eu dou cabo do gozo todo. Acho que perdeste o interesse em mim.

- Menina, eu não acho que tu sejas cinzenta.

- Nem eu! Nem eu! Eu acho que sou maravilhosa como o caraças, se ao menos soubesses, e acho que tu dantes também achavas que sim! Mas se assim não é, ou se simplesmente vais tomar tudo como garantido, então está bem. Eu já não estou disposta a ser tratada assim.

- Tratada assim, como?

Ela suspirou e demorou um momento a falar.

- Como se quisesses sempre estar noutro lugar, com outra pessoa.

(...)

Com bravata mal conseguida, ele tentou rir-se.

- Parece que estás a acabar comigo!

Mónica sorriu tristemente.

- Imagino que esteja, de certa forma. Tu não és quem costumavas ser, nabo. Eu gostava mesmo, mesmo muito do velho Jorge. E gostaria de o ter de volta, mas entretanto, lamento, mas não me parece que me devas continuar a telefonar. - Mónica virou-se e, um pouco cambaleante, começou a descer pela rua lateral em direcção à praia (...)

- Então, minha pequenina, ainda somos amigos, não somos? Eu sei que tenho andado um bocado esquisito, é apenas porque... - Ela parou por um momento, mas não se virou, e ele soube que ela estava a chorar. - Mónica?

Então, muito depressa, ela virou-se, aproximou-se dele, e puxou-lhe a cara para a dela, a face morna e húmida contra dele, falando-lhe rápido e baixinho ao ouvido, e por um momento radiante ele pensou que ia ser perdoado.

- Jorge, eu amo-te tanto. Tanto, tanto, e provavelmente sempre hei-de amar. - Os lábios dela tocaram-lhe a face. - Só que já não gosto mais de ti. Lamento. »

Sem comentários: